segunda-feira, 17 de agosto de 2015

TEXTOS

CIVILIZAÇÃO




O que tem mais cabimento,

Deslizar na canoa 

Pelo rio barulhento

Ou ficar preso

no congestionamento?



O que é menos boboca

morar numa oca

Comendo paçoca

Ou viver rabujento

num apartamento



Qual a melhor cena

crescer numa aldeia

Enfeitado de penas

Ou numa cidade

cheia de antenas?



O que é mais civilizado

Deitar numa rede

E ficar sossegado

Ou correr contra o tempo

Sempre apressado?



O que é mais coerente

Viver no presente

Sempre contente

Ou viver no escuro

planejando o futuro



O que é menos primata

Andar pelado no meio da mata

Ou se apertar

Com um nó de gravata?



O que dá mais arrepio

Tomar banho no rio

mesmo no frio

Ou a assombração

Chamada poluição?



O que é mais desolado,

Um cocar emplumado

E o corpo pintado

Ou ser um cara pálida

Com ar desbotado?



O que é mais sensato

Correr pelo mato

Sem usar sapato

Ou ter chulé

E criar calo no pé?



Responda agora pra valer

melhor parecer,

com os alienígenas

Ou aprender

Com os indigénas!



( Cláudio Fragata)

Família Diferente



Fiquei uma semana som ver o Thomas. Como o feriado do dia 12 com o outro do dia 15 sugerisse emenda, a escola diz que “antecipou” lições e concedeu folga à turma. Thomas aproveitou para aceitar o convite de praia e assim passou alguns dias em Ubatuba, com seu amigo Rolf e seus pais. Veio cheio de novidades:

- São legais, Celso, muito legais. Mas são também muito diferentes...

- Diferentes em que quê? Thomas. Explique melhor. Sei que esse seu amigo é europeu e quando ainda bebê seus pais vieram morar em nossa Terra. Você quer dizer que a culinária é diferente? São diferentes, por acaso, as roupas que usam?

- Não Celso. Comem mais ou menos a mesma coisa que a gente e também se vestem de maneira normal, mas são diferentes porque a vida deles parece girar em torno dos livros. São atentos a tudo e a qualquer momento param de ler, para atender o que a gente pede. Mas, se vão para a praia a primeira coisa que pegam é o livro e na casa deles existem livros em toda parte. Parece até um novo tipo de decoração. Livro no banheiro e até aí acho normal, mas também livro no terraço, na sala, nos quartos e até mesmo na cozinha. Incrível.

- E o Rolf, Thomas? Também gosta de ler?

- Gostar, Celso? Acho que já não é nem gostar. Aquela turma tem é paixão pela leitura. Outro dia, a mãe do Rolf lá na praia perguntou se ele tinha trazido o Bloqueador Solar e ele, envergonhado, voltou correndo para pegar, mas o livro o cara não esqueceu. Fiquei pensando “uma cara branquelo como ele, vem a praia e esquece o bloqueador, mas não esquece sua leitura”. Nunca vi uma família assim tão vidrada!

- E você acha isso errado, Thomas?

- Não acho errado, acho que eles são diferentes. Quando os pais conversam com os filhos, quase sempre falam dos livros que estão lendo e na viagem descobriam nas pessoas que passavam os personagens de suas leituras. Achei engraçado que o Rolf e a sua irmã nunca disseram que os pais os obrigam a ler. Não liam por obrigação, liam pro prazer. Liam para brincar com as palavras, para imaginar e para imaginar-se, para sonhar.

- E na escola Thomas? Como é o desempenho desse seu amigo Rolf? E da irmã dele? Devem ser ótimos em literatura, não?

- São ótimos em tudo. Sabem tudo, opinam sobre tudo. Tem hora que o assunto vai para o futebol, todo mundo tem palpite, mas o Rolf tem opinião. Sabem coisas da nossa política que nos nem imaginamos e vivem com os olhos grudados no mundo.

- São legais, Celso, muito legais. Mas são também muito diferentes...

- Bom dia, Rogério. Estou procurando uma escola para a Marcella, minha filha, e como me contaram que você adora a escola em que estuda o seu filho gostaria de saber as razões de tanto elogio. O que essa escola tem de especial?

- É verdade, Alfredo. A escola em que estuda meu filho Gabriel é, realmente, extraordinária e com imenso prazer a indico. Não é uma escola com extraordinários recursos e nem mesmo se destaca pelas promessas de projetos mirabolantes, mas todos os dias percebo em meu filho os três indícios seguros de que acertei na escolha e que o matriculei em uma escola de primeira linha...

- E você poderia me contar quais são esses indícios? Quais as “pistas” devo observar na hora de ter a certeza de que matriculei a Marcella na escola certa?

- Claro. A primeira pista, caro amigo, é a paixão de minha filha por sua escola. Ama seus professores, elogia suas aulas e sinto que cada vez mais amadurece e ama o ato intelectual de aprender pelo trabalho, desafiar-se em cada dia saber mais. Converso com a Marcella todos os dias e não me iludo, sei que ela gosta das amizades, ama os colegas e adora as brincadeiras, mas quanto o assunto se esparrama pelas atividades é ainda com mais entusiasmo que relata seu dia, comenta os projetos que desenvolve, sente a matéria que aprende nas notícias que lê, na novela que assiste, no Shopping que, de vez em quanto, vai com a mãe. A Marcella desenvolveu a capacidade de descobrir que o ato do aprender é tão natural quanto o de saborear uma gostosa fatia de pizza e que as disciplinas na escola a fazem cada vez mais, intervir no mundo...

- Tudo bem. Mas, qual a segunda pista?

- A segunda pista, observo ao deixar minha filha na escola, quando encontro aqui e ali um ou outro de seus professores ou quando participo de reuniões. Esses profissionais, Alfredo, amam o que fazem, “vestem a camisa da escola” com paixão, sentem-se valorizados em sua profissão e com orgulho falam de seus progressos. Em um primeiro olhar parece ser fácil confundir quem ama o que faz e quem é treinado para demonstrar esse sentimento, mas quando se está atento aos detalhes, a clareza dessa percepção é indiscutível. A Direção da escola é presente, atenta, permanentemente “ligada” e sabe fazer de seus professores uma verdadeira equipe, animando seus progressos, estimulando-os a se desafiarem, ajudando-os a vontade de crescer sempre.

- E a terceira razão, Alfredo, você pode até estranhar um pouco, mas se bem compreendida não é menos importante que as duas primeiras...

- E qual é essa terceira razão?

- Eu noto que na escola, Marcella que ainda não completou dez anos apaixonou-se pela política. Mas, curiosamente, essa paixão nada tem a ver com partidos ou opções ideológicas, mas é impressionante como a coesão dos professores despertou em minha filha o exercício do direito à palavra e o sentimento de intolerância às injustiças. Custei para descobrir que esse jeito de Marcella fora adquirido através das aulas que assistia, conquistado nos debates que participava. Algumas vezes encantado, outro até mesmo incomodado com seu espírito crítico, percebo lá em casa como crescia sua indignação e como não se calava quando sentia que alguma injustiça se propunha e que sabia pelas revistas que lia, jornais que buscava, programas que assistia. Enfim, Alfredo, sinto em minha filha crescer a olhos vistos a admiração pela escola em que está matriculada. Com prazer, tenho a certeza que notará o mesmo em seu pequeno Gabriel.

A tarefa de alfabetizar uma criança é atividade para profissionais. Somente a escola e somente bons professores sabem escolher método mais atualizado, conhecem os saberes infantis no contexto escolar e, dessa forma, podem alfabetizar com segurança. Uma ajuda realizada por pessoas estranhas ao método pode representar mal não menor, que a de alguém que sem preparo específico em uma sala cirúrgica pensa que pode atuar. É por essa razão que quando pais e mães, tios e avós sentem que podem ajudar uma criança a aprender a ler, o que de melhor devem fazer é procurar a escola e com os profissionais da alfabetização, descobrir caminhos em que a intervenção efetivamente colabore. Quando, entretanto, essa possibilidade não se mostra tangível, é importante conhecer alguns procedimentos que ajudando a criança a se envolver com o universo do letramento, em nada atrapalha seu processo de alfabetização e pode ainda positivamente contribuir para que, aprendendo na escola, torne-se leitora melhor.

Entre esses procedimentos, julgamos interessante sugerir:

Na entrada da casa, mostre que o mundo da leitura se faz presente no catálogo telefônico que ali, por acaso se acha; em um calendário eventualmente pendurado na parede, quem sabe mesmo neste ou naquele quadro que ainda que não tenha palavras, suscita a vontade de saber se é ou não assinado, quem é seu autor. Inserir a criança no mundo do letramento é ajudá-la descobrir que existem palavras em toda parte e que estas expressam indicações, idéias, orientações. Não é essencial que “se traduza” para a criança a palavra que ali está, mas que possa tornar-se aventureira no desafio de perceber como a sociedade cerca-se de palavras escritas e como é importante na escola aprendê-las.
Outro espaço de valor inestimável para essa imersão infantil no mundo da palavra é a cozinha sempre rica em receitas, produtos com rótulos, eletrodomésticos com embalagens ou com dizeres que representam continuidade nesse percurso de descoberta. Não é necessário que esse passeio seja realizado em um só dia; ao contrário é ainda mais útil que a curiosidade da criança, acesa em um aposento a leve perguntar coisas sobre palavras, impressas em rótulos, recados, decorações, etc.
Da mesma forma que a cozinha, também o banheiro sempre cheio de remédios, desodorantes, pastas e escovas de pentes, produtos capilares e outros, muito outros, se afiguram úteis.Não apenas o banheiro, mas também um escritório, uma sala de jantar ou mesmo um terraço exibe sempre imenso universo de coisas escritas que podem se prestar a desafios interessantes. É essencial que o acordar dessa curiosidade seja espontâneo e que os desafios não abriguem vontade de acerto. – O que será que está escrito aqui? Você acha que é isso mesmo? Será que não poderia ser outra coisa? Nesta oportunidade, a curiosidade da criança a motiva e uma forma infeliz de truncá-la é assumir o papel de sábio letrado que para cada pergunta, tem sempre uma resposta a oferecer.

Uma ajuda sistemática; um pouquinho hoje, um retorno amanhã; um perpétuo ponto de interrogação sempre pronto para acender a vontade da busca toma em verdade pouco tempo e muito ajuda. Emília Ferreiro sempre destacou que dois mitos na alfabetização merecem cair: o primeiro é de que a alfabetização se encerra na escola e o segundo é de que basta a um adulto saber ler, para que possa a uma criança ensinar a ler. Verdadeiros profissionais não se substituem, mas aceitam com carinho a proposta interessante de uma ajuda bem pensada.
Autor: Celso Antunes

Nesta escola não existe...
Nesta escola não existe o aluno 18, da sexta série B.

Existe, é claro, o Ricardo que tem olhos azuis e é filho do Sr. Guilherme e de dona Margarida. Ricardo é um menino inteligente, vivo, brincalhão ainda que tenha sérias dificuldades para perceber com clareza os limites que separam seus anseios de liberdade e os que a escola está buscando estruturar. Resiste como toda criança inteligência o faz, mas seu progresso é indiscutível, sobretudo depois que conversando com o Sr. Guilherme e dona Margarida pudemos mostrar que toda escola é uma continuidade do lar. Não apresenta qualquer dificuldade de aprendizagem, mas como não gosta muito de estudar e, por isso, necessita de reforço, já providenciado, em algumas disciplinas. Estamos pensando sempre no futuro de Ricardo, mas em nenhum instante esquecemos seu presente e, por isso, sem que saiba consome nossas discussões e nossas preocupações em fazê-lo cada vez mais feliz, cada vez mais envolvido no que aprende e na indispensável relação entre o saber e o viver.

Nesta escola não existe o professor de Matemática, da sexta série B.

Existe o Luiz Henrique que ensina disciplina para essa série e que nos interessa tanto quanto profissional como por seus valores humanos. Investimos com firmeza em seu aperfeiçoamento, instigamo-lo a crescer sempre e aprender cada vez mais e mostramos com insistência que o prazer com que divaga pelos números e pelas formas geométricas deve ser o mesmo com que mergulha nos segredos da aprendizagem e nos valores de uma avaliação formativa. Luiz Henrique tem duas filhas e atravessa momento difícil em sua relação com Márcia sua esposa. Sabemos de suas dificuldades e com extremo respeito para não atravessarmos a tênue barreira entre seu direito à privacidade e sua necessidade de ajuda, colocamos nosso serviço de orientação psicológica ao seu dispor. Confiamos em nossos mestres e sabemos que para torná-los ainda melhores é preciso ajudá-lo muito, cuidar sempre de seu trabalho e de sua segurança, de sua alegria em ensinar e sua imensa vontade em viver.

Nesta escola não existe a funcionária do turno da manhã que cuida da limpeza dos banheiros.

Existe a senhora Ivani que desempenha essa função, mas que para nós não é, e jamais será apenas um vago Recurso Humano, mas pessoa viva e capaz que merece nossa atenção, tanto quanto a merecem pessoas como Ricardo e Guilherme, Margarida e Márcia, Luiz Henrique e outros muitos. Sabemos que em sua tarefa de cuidar, a senhora Ivani é importante educadora e por isso mesmo ao contratá-la analfabeta, orgulhamo-nos de ensiná-la e de com seu crescer, fortalecer sua auto-estima e encontrar a dignidade no importante trabalho que executa. Sua saúde nos preocupa e, por esse motivo, cuidamos de forma permanente de sua educação alimentar, da higiene no lar e no trabalho e na medida do possível, buscamos ajudá-la em sua vida como mãe e como mulher, pois sabemos que quanto mais crescer, mais fará pela obra maravilhosa do crescimento de todos nós.

Nesta escola não existe...

Desculpe a divagação. Melhor seria pisar fundo na terra, descer dessa cavalgada de sonhos pela escola que buscamos e crer que a frase ficaria melhor composta se disséssemos “esta escola não existe”. Entretanto não é necessário renunciar a esperança e nem acreditar que a crua realidade seja menos fantasiosa que a delícia do sonho, e assim pensar: que pena, essa escola “ainda” não existe.
Autor: Celso Antunes

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