quinta-feira, 14 de janeiro de 2016



POR CELSO ANTUNES,
O MERCADO DOS SONHOS

Foi um verdadeiro drama para a família de Cristiana. O pai, promovido em poderosa transnacional onde era executivo de destaque, teve de mudar da pequena cidade interiorana para a maior megalópole da América do Sul. Recompondo sua vida às pressas, ainda teve tempo de procurar uma escola para sua única filha. Com o novo salário que receberia e com a importância do cargo assumido, tratou logo de buscar a melhor escola, poderosamente encravada no bairro de caros apartamentos e mansões dos sonhos. Ouviu lindos discursos pedagógicos e a funcionária responsável pelas Relações Institucionais tratou de mostrar as salas limpíssimas, os laboratórios modernos e o material pedagógico escrito sob a mais rigorosa supervisão de Vigotsky, Piaget e muito mais. Não teve dúvidas: matriculou Cristiana na hora, lamentando o tempo perdido na modesta escolinha do interior.
Mas, Cristiana teve sérios problemas de adaptação. Não teve problemas de aprendizagem e com surpreendente facilidade, rapidamente destacou-se como uma das melhores alunas da sua classe. Os resultados eram excelentes e os elogios imensos, mas ainda assim Cristiana transformou-se numa criança infeliz. Sentia saudades.
Saudade da escolinha onde, ao lado das Ciências, aprendeu a cozinhar, consertar eletrodomésticos e olhar pela primeira vez um motor de automóvel. Saudade da Júlia, que ensinava Artes, estimulava esculturas com o barro do riacho, cobria as paredes de pinturas feitas por alunos e os fazia compositores de músicas que já não ouvia na linda escola de agora. Cristiana, ao lado de professores anódinos que transitavam por sérios problemas epistemológicos, não podia esquecer o dia em que sua classe incorporou-se ao trabalho dos lixeiros e saiu pela cidade em uma campanha pela vida, e nem mesmo suas visitas a feirantes, policiais, mecânicos e enfermeiros. Cristiana não podia deixar de lembrar o jeitão simples do Tonico, o professor de Geografia que fazia excursões de bicicleta para ensinar relevo e os obrigava a assistir o Jornal Nacional para aprender agitos internacionais – Meu Deus, onde ficara aquela História dos conflitos de todo dia, a Química nos cosméticos e nos perfumes levados de casa e a Física dos arremessos de vôlei ou corridas de Fórmula 1?
Foi impossível para Cristiana sepultar em suas lembranças os dias de sol de uma escolinha onde o que de mais importante aprendia era o aprender a aprender. Onde decifrou o que era uma pesquisa, diferenciou análise de síntese e soube aplicar em problemas novos, soluções conquistadas. Onde, pacientemente, construiu inevitáveis conexões entre a vida e as disciplinas escolares.
Na escola de sua saudade ficavam guardadas para sempre os toscos caipiras que a ensinaram a descobrir e que a estimularam a comparar, deduzir, classificar, construir.
Nunca mais foi possível em sua nova escola brincar de aprender. Aprender a brincar.

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